11 de Novembro de 2009

Primeiras impressões de Cabo Verde

E pronto, é isto. Parece que estou mesmo em Cabo Verde, sentado na secretária que vai ser minha nos próximos tempos. Porque não há nada como começar logo pela fresca, apanharam-me cedo na pensão onde passei a noite e daqui a pouco tenho a minha primeira saída. É o back to basics de que eu sentia saudades. Começou, entretanto, a busca por uma casa. Nem muito cara, nem muito longe. Poderá ser difícil conciliar as duas coisas. O jornal fica numa das zonas novas da cidade, mesmo ao lado da Assembleia Nacional e as rendas são tendencialmente caras. Será, portanto, uma questão de opção: uma casa um pouco mais cara, mas melhor, ao lado do emprego; ou uma casa mais barata, mais longe e talvez mais velha.

As primeiras impressões são positivas. Definitivamente, a Praia não tem nada a ver com Luanda. Tem o inevitável movimento de uma capital, mas está longe do fim do mundo em cuecas da sua congénere angolana.

Entretanto, já arranjei a minha primeira fonte: o recepcionista da residencial, o mesmo que me perguntou, para início de conversa, se eu gosto "de meninas".

Mais, em breve.

10 de Novembro de 2009

Maravilhas da gripe A:

Um ataque de tosse passou a ser suficiente para afastar os vendedores do Citibank.

9 de Novembro de 2009

De quarta em diante

A partir de quarta-feira vou voltar a trabalhar em imprensa. Já experimentei todos os suportes - falta-me, de forma regular e sistemática, o on-line. No jornalismo, gosto especialmente de escrever. Encontro nos jornais a verdadeira essência da profissão Para mim, nenhum suporte é tão genuíno como o original. A palavra imprensa, a tinta no papel, a imagem (se forem boas imagens, ainda melhor) e o ritual da compra tornam-no quase transcendental.

Diz-se que os jornais vão acabar. Não quero acreditar nisso. Também se dizia que a rádio - com os CD's - e o cinema - com a VHS, imagine-se - iam acabar e, afinal, ainda aí estão. O que falta aos jornais - e às revistas, por defeito - é a capacidade de se reinventarem. Ninguém está disposto a pagar para ler (e ler é um exercício potencialmente chato) uma coisa a que acede à borla no FM do auto-rádio, no www da Web, num dos muitos canais do velho analógico e da nova TDT ou ainda no telemóvel. Perante isto, é muita presunção achar que alguém se vai dar ao trabalho e à despesa de comprar um jornal para ler mais das do mesmo das mesmas notícias reaquecidas, na melhor das hipóteses, do dia anterior.

Uma imprensa moderna terá de ser uma imprensa actuante, surpreendente, interventiva. Um jornal dos novos tempos terá de ser uma colectiva de inéditos, de histórias devidamente explicadas. Tem de acrescentar valor à informação. Este é o tempo daqueles que têm coragem de transformar artigos em reportagens e fazer desses textos pensados as verdadeiras notícias que marcam a agenda. Sobreviverão, quero acreditar, os jornais que não se limitarem a informar, mas que saibam, igualmente, assumir o seu papel formativo.

O projecto que aceitei integrar quer ser isto. Quer aprofundar as matérias, quer não só narrar histórias, mas explica-las aos leitores. Quer fazer - ambiciona fazer - bom jornalismo. Quer começar agora o caminho para lá chegar.

Não sei se serei um bom jornalista, mas gosto de gente que me dá valor. Depois de ter ajudado a fundar um canal de televisão, "refundar" um jornal parece-me um desafio muito interessante.

6 de Novembro de 2009

Sou um amigo do alheio

Há uns anos, era eu estudante, marquei um encontro matinal, num Sábado, com uma colega de faculdade. Estávamos na época de exames e a ideia era tirarmos umas fotocópias de uns apontamentos. O encontro ficou marcado para as 10:30, no Colombo.

Como cheguei cedo, fui passear à Fnac. Vi livros, DVD e CD e, ao que parece, esqueci-me de um CD na mão, tapado pelos apontamentos que ia fotocopiar. Sem me aperceber do sucedido, saí. Tentei, pelo menos. Ao passar pela porta, soaram todos os alarmes da loja, fui rodeado por vários seguranças e prontamente conduzido a uma sala fechada. Não foi fácil explicar e repetir a explicação aos cinco gorilas que me ameaçavam, mas lá consegui provar a minha inocência.

O assunto mereceu umas valentes gargalhadas de amigos e família. O certo é que fiquei tão traumatizado com a situação que ainda hoje - e isto é rigorosamente verdade - continuo paranóico com as saídas das lojas que visito. Sempre, mas sempre, antes de sair de uma loja que tenha detectores, abrando o ritmo e percorro-me mentalmente, para tentar perceber se levo comigo alguma coisa que não me pertença. Da mesma forma, e apesar do exercício prévio, não deixo de suster a respiração naqueles segundos intermináveis. Continuo à espera do dia em que vou voltar a passar por ladrão. Porque vai acontecer, eu sei que vai.

5 de Novembro de 2009

"... o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca..."

Não se assustem, é só uma citação do último livro do Saramago.

"Oh meu senhor, você está é com gonorreia!*

"... é com gonorreia".

Em zapping, só ouviu a parte final do que supõe ser uma fala de telenovela. Ou sitcom, dado o descabido. Nem sequer olhou para a imagem. Aconteceu exactamente antes de tocarem à campainha. Pegou no comando, tirou o som da televisão e foi à porta. Tem esta mania quase secular de nunca abrir a porta de casa sem antes baixar o volume da televisão. A gonorreia - a do tipo da novela, não a dele, claro - seria motivo de suficiente embaraço, mas aquilo que o chateia mesmo é imaginar que um visitante de ocasião - nunca programa visitas, logo não recebe visitantes que não os de circunstância - pode, pelo som que sai do aparelho, descobrir, de forma absolutamente inusitada, o que é que se passa naquela sala, para mais se aquilo que se passa é, acaso, um problema de gonococos.

Roda a chave uma, duas vezes e vai com a mão ao trinco. Apercebendo-se de que não faz ideia de quem seja, olha o relógio - não à procura de uma resposta, só para ver as horas - e espreita pelo "buraquinho", orifício ao qual não consegue associar outro nome. Do lado de lá, no patamar do seu segundo andar esquerdo, um indivíduo com um peculiar aspecto. São 21: 30 e à meia luz de uma lâmpada de escada, 40w, resta-se, impávido, um sujeito de aspecto cândido, segurando um livro que de tão grosso só pode ser sagrado.

"Vou abrir", convence-se.

"Boa noite".

"Boa noite. Posso-lhe falar da palavra de Deus?"

Três segundos de espera antes da resposta. Um, dois. "Sim, faça o favor de entrar". A resposta foi tão surpreendente que durante alguns instantes o próprio profeta quedou-se num sagrado silêncio, tão a propósito, dada a iminente chegada dos céus à terra.

"Entre, homem, entre". Logo reagiu o visitante, entretanto refeito do susto da afirmativa.

Encaminhado para sala, segurando a bíblia na mão direita e uma pastinha na esquerda, provavelmente carregada de Sentinelas, ajeita as calças, respira fundo, abri o santo livro na página previamente marca e sem esperar qualquer consentimento, dispara: "Então, esta cabrão tem mesmo gonorreia, não é verdade?"


*O mote desta semana, a ler aqui, aqui e aqui.

4 de Novembro de 2009

Update sobre Cabo Verde

Daqui por uma semana, precisamente, estarei na cidade da Praia. Saio de Lisboa dia 10 e chego a Cabo Verde na madrugada de dia 11. É a segunda vez, em duas, que acontece assim. Também viajei de noite para Angola.

Continuo sem casa para morar. Já sei que vou passar os primeiros dias num hotel e talvez - talvez - fique o primeiro mês num apartamento "emprestado", enquanto procuro um poiso mais definitivo e o apetrecho mais importante: uma cama.

Daqui a poucos dias estarei a recomeçar de novo, "novamente". Os começos são sempre bons. Ao menos, quando nos estreamos, ainda não temos desilusões. Vou e não sei quando volto. Mas vou na mesma e esta liberdade, amigos, priceless.

Quando chegar ao arquipélago vou ter 27 anos (faço-os dia 9). Hei-de, então, experimentar trabalhar em mais um país. Contando com Portugal, mais Angola, serão três. É obra, para tão pouco tempo de vida. Cabo Verde é uma aposta pessoal minha. Os ordenados são muito inferiores aos que se praticam em Angola para os expatriados. Por isso, a oportunidade de valorização pessoal e profissional foram determinantes na minha decisão. Quero continuar a crescer como jornalista e, principalmente, enquanto Homem. Quero criar e ter liberdade criativa. Errar, reconhecer o erro e fazer melhor na vez seguinte.

Esta forma itinerante de levar a vida pode parecer uma parvoíce para a maior parte de vocês, mas saber que o mundo não se esgota no caso Freeport, no processo Casa Pia e nas goleadas do Benfica é um exercício ao qual todos se deviam obrigar. É que há tanto mundo por aí...

Este filme é...


... muito mau.

2 de Novembro de 2009

Um post suburbano

Sou um rapaz da Margem Sul. Orgulhosamente, já tomei o pequeno almoço na Páscoa, almocei na Pérola da Cruz de Pau e fiz compras no Pingo Doce das Paivas. Também já acordei com o mau cheiro da baia do Seixal e fui assaltado no Miratejo. Andei de Rodoviária do Sul do Tejo e depois nos TST. Às vezes até apanhava um autocarro dos Belos. Atravessei o rio de Transtejo, primeiro num cacilheiro e depois de catamaran. Entretanto chegou o comboio e comecei a ir de Fertagus.

Nasci em Lisboa, mas o meu pai correu a registar-me na Arrentela. Fiz a primária na Torre da Marinha, o ciclo do Vale da Romeira e o secundário no Cavadas. Entretanto, fui estudar para Lisboa, não sem antes arranjar emprego na Amora. Cheguei a trabalhar num jornal chamado Margem Sul e ainda estive nas listas para uma eleição à Junta de Freguesia. Sou um suburbano e tenho muito orgulho nisso.

Por isso, é complicado perceber qual é o problema que os que moram do outro lado do rio têm em atravessar a ponte. "E se nos encontrássemos? Ah, claro, onde? Aqui na minha banda. Epá, isso é que não!".

Há uma espécie de fobia em relação à Margem Sul. Temos parques bonitos, cafés agradáveis, salas de cinema, teatros e auditórios (um deles recebe um dos maiores festivais de jazz do país, imaginem). Também temos muitos comunistas, é certo, mas estão todos vacinados.

O Barreiro pode não ser o principado do Mónaco, mas não consta que em Loures façam tortas como as de Azeitão. Da mesma maneira, não me parece que na Amadora - que terra, credo - haja uma serra como a da Arrábida. E em Oeiras, "serrá" que "carrregam" nos "rr's" como em Setúbal? Talvez enquanto "frritam" o choco.

A Margem Sul - independência já! - é isto, aquilo e o outro, mas no Verão e no Avante é vê-los em aprumado registo estival. Nem precisam de GPS para cá chegar.

Só não termino com um "Margem Norte jamais!", porque ainda me saem os planos furados - como ao outro - que isto nunca se sabe o que nos reserva o dia de amanhã. Mas fica esta, para memória futura: Caparica, Caparica, Caparica. Toma e embrulha.

António Sérgio


Habituei-me a ouvir o António Sérgio dentro do carro. Ou porque, à data sem casa, estava parado a namorar por aí, ou então, anos mais tarde, enquanto voltava tarde do trabalho. Foi dos poucos que me fez levantar o volume do rádio só para o ouvir falar ao microfone, muito mais do que para escutar as canções que escolhia.

Estive uma vez com ele, ao longe, sem contacto próximo. Ouvi-o, dessa vez, com a mesma atenção de todas as outras.

António Sérgio era um irreverente. E a mensagem que recebi no telemóvel, anunciando a sua morte, fez-me recuar até ao tempo em que "O Lobo" era a minha companhia das madrugadas.
A rádio em Portugal está hoje mais pobre. O país perde um grande comunicador e um guardião do jeito puro de falar "nas ondas do éter".

A dignidade que manteve até ao fim - mesmo depois de ser escorraçado de uma Comercial demasiado comercial - fazem dele um modelo de rectidão e profissionalismo. A cultura deste país precisa de visionários como ele. Até amanhã, camarada.

1 de Novembro de 2009

E o mote para esta semana é:

Esta semana sou eu a dar o mote. E aqui está ele: "Oh meu senhor, você está é com gonorreira!"

31 de Outubro de 2009

Dos pés à cabeça

Creio que, com o avançar da idade, estou a ganhar uma peculiar excentricidade no que ponho nos pés. Durante anos, muitos anos, o tipo de sapatos ou ténis que comprava estavam absolutamente formatados. Agora, a caminho dos 30 - longe, ainda, claro - descobri que gosto mesmo é de ofuscar de baixo para cima. Ontem, numa única tarde, duas extraordinárias aquisições, com as quais conto impressionar cabo-verdianos (cabo-verdianas, de facto, mas uso o masculino para não causar celeumas familiares).

Na loja da All-Star, umas discretas botas verdes. Na loja da Adidas, uns singulares ténis azul-bebé e cor-de-laranja.

Concluo: sou um rapaz muito equilibrado e discreto, menos nos pés.

30 de Outubro de 2009

Em carta fechada (updated)*

São 8:22. Precisamente, oito-e-vinte-e-dois. O relógio digital não deixa margem para dúvidas. Comprou-o há precisamente 7 meses e treze dias. Escreve treze, mas diz ‘treuze’. É como muito e ‘muinto’.

São 8:22. Aliás, com isto tudo já são oito-e-vinte-e-três. Se carregar no segundo botão do lado direito consegue até saber o segundo preciso. Não carrega. Ou carrega? Vai lá com o dedo. Não, não carrega.

Está à espera do autocarro, como faz todas as manhãs de segunda a sexta-feira e, a cada três semanas, igualmente aos sábados. Gosta desses sábados. Gosta de sábados e prefere não trabalhar, mas como trabalha – a cada três semanas – então gosta desses sábados também.

Anda de autocarro, no autocarro que vai chegar dentro de 4 minutos, quando forem oito-e-vinte-e-sete, há 745 dias. Sempre, menos aos fins-de-semana, excepto os sábados a cada três semanas. Também não anda nos feriados e não andou nos 34 dias úteis de férias que já gozou desde que há 745 dias começou a andar no autocarro que vai chegar dentro de 3 minutos. Agora são três.

Mora a 5 quilómetros e 432 metros do sítio onde trabalha. Viu no Google. Vê tudo no Google e sabes imensa coisas sobre coisas que, geralmente, não interessam a ninguém e, aqui para nós, não lhe interessam particularmente. Ou melhor, interessam, mas não interessariam se ele tivesse outras coisas que lhe interessassem mais.

Tem uma vida uma bocado aborrecida, portanto. Felizmente, não se aborrece com isso.
Podemos dizer, acho que podemos, que é um aparente – fixem-se no “aparente” – conformado. Bem, só um conformado seria capaz de há 745 dias, descontando fins-de-semana, excepto os sábados a cada três semanas e os 34 dias úteis de férias que já gozou, almoçar uma posta de peixe-espada preto, acompanhada de três batatas cozidas e feijão verde. Tudo coisas sem grande sabor, portanto. “As coisas que não sabem a nada não chegam a enjoar, porque não sabem a nada”, respondeu certa vez à indignada empregada brasileira do restaurante onde o tratam pelo nome próprio nome.

Falta um minuto. Chegou o autocarro. Um minuto antes, nota-se. Faz uma cara de desagrado. Chegar antes não é bom. Aliás, é tão mau como chegar um minuto depois. Se faltava um minuto, faltava um minuto para o autocarro chegar. Um m-i-n-u-t-o.

35 depois – que trânsito! – completa a distância até à paragem que o deixa a 57 passos do edifício do escritório. Podia subir de elevador até ao décimo quarto de 18 andares. Sobe de escada. São 255 degraus, 3 na entrada, mais 6 por patamar, três patamares em cada andar. Chega relativamente casando e relativamente com sede. Entra e vai à copa. Bebe um copo de água em quatro goles. Limpa a boca a um guardanapo de papel, nunca ao rolo de cozinha.

Trabalha quatro horas de manhã, pára uma hora para almoçar e trabalha quatro horas à tarde. Desce os 255 degraus. Apanha o autocarro que percorre 5 quilómetros e 494 metros (faz uma rua a mais) até à paragem perto de casa.

É assim todos os dias.

Agora, está à porta do prédio. Pega no porta-chaves, com quatro chaves. Prédio, correio, casa e cofre – está no armário da casa de banho, debaixo do lavatório, atrás da toalha azul escura, demasiado áspera para ser usada. Já abriu a porta. Dois passos até à caixa do correio. Chave mais pequena – ainda mais pequena que a chave do cofre. Roda, abre e dois envelopes. Primeiro, conta. Segundo, respiração suspensa. Ainda só viu o verso, mas tem uma suspeita. O envelope fechado, que segura ao contrário, é – já o sabe – o “yes, man” que tanto esperava. Vira-o. A sua vida vai mudar. Com esta é que o foderam.



* No mote anterior, além de me atrasar, escrevi uma porcaria tão valente que me causou algum embaraço. Aqui está uma versão mais pensada. Se melhor, vocês o dirão.

A alegoria não passou de moda*

As paredes, de um verde não muito escuro, aqui e ali marcado pela humidade de uma construção não muito nova. A mesma humidade que contorna a janela que dá para o pátio, que dá para o prédio em frente, que dará para a rua. Lá dentro, novamente no quarto, uma cómoda antiga, com puxadores em pau santo. Em cima, um oratório fechado e sem santo; já não se reza aqui. Ao lado, por esta ordem, uma cadeira mogno com palhinha, um vazio e outra cadeira. Dando a volta, um roupeiro, uma cadeira - tantas cadeiras - e a cama. Cabeceira estilo D. José, por ventura a precisar de restauro. Colcha a despropósito e um corpo inerte, o meu.

Estou deitado há várias horas, tantas que já perdi a conta, num quarto que não sei se será meu, não sendo o meu. Comecei por tentar adivinhar o que será feito da papeleira que ocupava o vazio entre as duas cadeiras. O quarto não é meu, mas estive aqui muitas vezes, não fisicamente, acho, mas talvez em retórica. Provavelmente, tenho quase a certeza disto, também não estou aqui agora. Contudo, sei exactamente, disse-o há pouco, o que está para lá da janela que ilumina o cheiro a mofo. Sei e acreditem que nunca me abeirei dela. Sempre que venho a este quarto fico aqui onde estou, na cama. Foi daqui que te vi - ou julguei ver - a escrever na papeleira que deves ter - deves, porque não tenho a certeza que o tenhas feito, ou se sequer existes - levado contigo quando partiste, se é que partiste, porque talvez não tenhas chegado a existir.

Sempre gostaste muito de cadeiras. Ou talvez seja eu a gostar delas e por isso as tenha posto aqui. Afinal, isto é tudo fruto da minha liberdade criativa. Quando, deitado na colcha sem sentido, olho em redor, parece-me tudo tão tangível. Quase que acredito. Mas isso é só até levantar a cabeça e olhar para o céu. Desculpem, para o tecto. Que quarto bafiento teria uma representação da alegoria da Guerra e Paz. Isto não é Viena de Áustria. É só o teu quarto, ou o meu, ou o nosso, que eu, pelos vistos, só sonhei ter, mas onde vinha sempre que queria estar contigo.



* O mote desta semana. Para ler igualmente aqui e aqui.